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Propostas serão levadas para a Conferência Nacional que acontece em setembro, no Distrito Federal
Nesta quinta-feira (12), a CUT São Paulo sediou a Conferência Livre de Mulheres Trabalhadoras reunindo de forma híbrida dezenas de trabalhadoras de várias categorias para debater políticas públicas essenciais. O evento focou no enfrentamento à violência, na busca pela autonomia econômica e no direito à política de cuidado.
Além das mesas e debates, a conferência também elegeu delegadas para a 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, programada para setembro, em Brasília, sob o tema “Mais Democracia, Mais Igualdade, Mais Conquistas para Todas”.
O evento reuniu lideranças do movimento sindical bancário e contou com a participação especial de Ivone Silva, presidenta do Instituto Lula e vice-presidenta da CUT-SP, expositora da mesa sobre a Lei da Igualdade Salarial, da secretária-geral da FETEC-CUT/SP, Ana Lúcia Ramos Pinto, e dirigentes sindicais da base da FETEC vindas de Limeira, São Paulo, Jundiaí, Guarulhos e ABC.
No período da manhã, a secretária da Mulher Trabalhadora da CUT-SP, Márcia Viana, abriu o encontro destacando que a central está mobilizando mulheres em todo o estado para a realização de conferências institucionais, em parceria com movimentos sociais e partidos. O objetivo é ampliar a presença feminina nas etapas estadual e nacional da 5ª CNPM. ‘’Estamos também cobrando do governo estadual a convocação da conferência paulista, essencial para definir a proporção de delegadas por município’’.
Márcia lembrou que as mulheres são as mais impactadas pelas crises econômicas e climáticas e ressaltou a importância em se levar o maior número possível de trabalhadoras progressistas à etapa nacional. “Debatemos a dura realidade da escala 6×1, com jornadas duplas e triplas de trabalho. É fundamental que ocupemos todos os espaços”, afirmou.
Amanda Corrêa Corsino, secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, reforçou que a conferência é uma oportunidade para ampliar a participação das mulheres do “Brasil profundo”. Segundo ela, o atual cenário é de grandes desafios, com a extrema direita organizada tentando avançar sobre os direitos das mulheres e da classe trabalhadora.
“Precisamos nos organizar para fortalecer a autonomia econômica das mulheres, especialmente diante da sobrecarga do cuidado, que limita o acesso ao mercado de trabalho. Temos uma Política Nacional de Cuidados e devemos nos apropriar dela”, disse. Amanda também destacou a importância da nova Lei da Igualdade Salarial, que precisa ser fiscalizada com atenção para que seus mecanismos sejam efetivos.
Resistência à Lei da Igualdade Salarial
Ivone Silva, presidenta do Instituto Lula e vice-presidenta da CUT-SP, destacou os obstáculos à efetivação da Lei 14.611/2023, que garante igualdade salarial entre homens e mulheres. Segundo ela, setores empresariais resistem à aplicação da lei, e muitas empresas preferem pagar multas a corrigir desigualdades.
Dados de 2024 mostram que as mulheres ainda ganham 20,9% menos que os homens, índice que sobe para 52,5% no caso das mulheres negras. Ivone também chamou atenção para a precarização do trabalho feminino, com milhões de mulheres fora do mercado formal por falta de creches e políticas públicas de cuidado. “Elas viram manicures, doceiras, trancistas, levando os filhos para o trabalho”, relatou.
Com base em dados do Dieese, Ivone alertou para a sobrecarga do trabalho doméstico, que equivale a 21 dias a mais por ano de trabalho não remunerado. Além disso, mesmo em setores com paridade salarial, mulheres seguem excluídas de cargos de liderança.
Ela defendeu a inclusão transversal das pautas de gênero em todos os ministérios e criticou a redução dos direitos das mulheres à chamada “pauta de costumes”. “Aborto legal é saúde pública. Herança igualitária não é moral, é justiça social.”
Ivone concluiu reforçando que a presença feminina deve ser ampliada em setores estratégicos, como a tecnologia, e que é preciso disputar os ganhos da automação para melhorar as condições de vida das mulheres. “Quando as mulheres entram em um setor, o salário cai. E isso não é coincidência”, afirmou.
Cuidar sem apoio e viver sem direitos
Ana Lucia Ramos Pinto, secretária-geral da FETEC-CUT/SP, fez um relato comovente ao expor as dificuldades enfrentadas no cuidado do marido acamado. Destacou que a legislação atual restringe o uso dos vencimentos da pessoa adoecida apenas a despesas médicas, impedindo que a família utilize esses recursos para sustento básico da casa.
Ela questiona a realidade das mulheres desempregadas que acumulam, sozinhas, a sobrecarga do cuidado
“Tenho um emprego e um salário, mas como as mulheres desempregadas lidam com maridos, filhos ou pais doentes em casa? Como elas sustentam e suportam esse processo tão penoso e desgastante?”
Ela defende que essa realidade, vivida por tantas mulheres no Brasil, seja levada à Conferência Nacional, como pauta urgente de reconhecimento e formulação de políticas públicas de cuidado.
Ana Lúcia também abordou a violência contra a mulher, com destaque para os recorrentes casos de feminicídio. Ressaltou a necessidade urgente de rever as formas de acolhimento às vítimas, denunciando que, muitas vezes, o atendimento é feito por homens que não as escutam de forma adequada. ‘Precisamos avançar muito nesse processo’, afirmou.”
Assédio e violência no trabalho
Luana Bife, dirigente do Sindsep e da CUT SP, denunciou o aumento dos casos de assédio sexual contra mulheres no trabalho, que subiram de 1.281 em 2023 para 1.497 em 2024, segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT). Apesar do crescimento de TACs e ações civis públicas, a impunidade e a subnotificação persistem, com aumento de 63,7% nas denúncias desde 2019, mas poucas efetivamente analisadas.
Luana defendeu a ratificação urgente da Convenção 190 da OIT, que garante o direito a um ambiente de trabalho livre de violência e assédio. Também cobrou a criação de uma política nacional de cuidados, destacando a sobrecarga das 11 milhões de mães solo no país que enfrentam jornadas exaustivas, muitas vezes em situação de subemprego e informalidade.
Ela criticou a alta taxa de informalidade entre as mulheres (37%), sendo que 41% não conseguem contribuir com a Previdência Social. A situação se agravou com a reforma trabalhista e demissões pós-licença-maternidade na pandemia.
“As bancárias conquistaram 180 dias de licença-maternidade e 20 dias de licença-paternidade. Esse direito precisa ser estendido a todas as trabalhadoras’’, disse.
Lideranças sindicais presentes à Conferência Livre também alertaram para retrocessos como o fechamento do serviço de aborto legal no Hospital Cachoeirinha (SP), e defenderam pautas como a redução da jornada de trabalho, fim da escala 6×1, extensão da licença-maternidade de 180 dias e paternidade de 20 dias a todas as categorias, além do reconhecimento da jornada invisível de 7 dias por semana das mulheres em casa.
Saiba mais sobre a Conferência Nacional
A 5ª CNPM é um processo democrático e participativo promovido pelo Ministério das Mulheres e pelo CNDM, com apoio dos governos locais e da sociedade civil. Com foco na interseccionalidade, busca garantir representatividade e igualdade para todas as mulheres. A conferência acontece de 29 de setembro a 1º de outubro de 2025, com o tema“Mais Democracia, Mais Igualdade, Mais Conquistas para Todas”.
Entre os eixos principais estão:
Realizada quase uma década após a última edição (2016), a conferência reafirma o compromisso com a democracia e os direitos das mulheres, especialmente em um contexto de retrocessos vividos nos últimos anos.
Cronograma
A metodologia da 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM) prevê uma ampla mobilização em todo o país, organizada em etapas preparatórias que antecedem o encontro nacional.
As conferências livres, que começaram em 28 de abril, seguem até 15 de agosto, sendo espaços fundamentais para que as vozes e contribuições das mulheres em sua diversidade — como pescadoras, marisqueiras, quilombolas, LBTs, entre outras — cheguem fortalecidas à etapa nacional.
As conferências municipais e regionais também já estão em andamento, com prazo até 28 de julho para serem realizadas. Já as conferências estaduais e distrital terão início em 1º de julho e poderão ocorrer até 31 de agosto.
Essas etapas são essenciais para consolidar diagnósticos locais e formular propostas que representem as realidades e demandas das mulheres em seus territórios.


Ivone Silva – Instituto Lula e CUT SP

Ana Lúcia Ramos Pinto – FETEC-CUT/SP

Luana Bife, Sindicato dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo e CUT SP

Malu Silva Seeb SP

Delegação Seeb ABC
fotos: FETEC SP e Rafael Silva CUT SP
fontes de dados: CUT SP, FETEC SP, Ministério das Mulheres
Fonte: FETEC-SP
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